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Mensagens

Léxico

esbagoar - desfazer em bagos, ou bágoas
caipora - azar
ousio - ousadia, atrevimento
brês - cesto
solerte - ordinário
empanzinar - abarrotar
mandil - avental
cheda - traseira laterais carro de bois
cainha - unha-de-fome
gerifalte - ave de rapina
zambro - trôpego
somítego - poupado de mais
estroncar - rebentar
zarcamente - ?
bajoujo - palerma

Léxico

zorata - doida
escabujar - mexer
fanchona - mulher imponente
esampada - embruxada
lastrar - dar lastro
macanjo - palerma
coitanaxo - coitado
futre - ordinário
récega - golpe de sol
forjicada - cozinhada
chambaril - pau de suspensão do porco morto
galilé - alpendre na igreja
esperluxar - luxar
murzango - triste
resulho - parte sólida do caldo
mesoneiro - vendeiro (de ‘mesón’)

Louvável Sabedoria

A sabedoria é louvável do prisma de quem não a tem. O saber é uma premissa que negligência o prazer da descoberta e do assombro. Saber é dominar, é conhecer todos os passos que nos conduzem ao culminar do acto sem ser objecto do mesmo. O conhecimento é agradável para quem não se move nos agitados fluxos orgânicos, é sinónimo de uma potência sem acção. Sabemos todavia que viver é tão somente ser o tempo e o espaço onde ocorre o acontecimento, é ser o móbil pelo qual o mundo gira em torno do seu eixo. Dou-vos um exemplo, podemos conhecer perfeitamente todas as equações que definem a lei da gravidade e ao mesmo tempo não sermos capazes de perpetrar um luar ou de fazer vibrar as marés. Quem é que prefere o cálculo do projéctil ao sentimento em que somos o próprio movimento sem pensamento racional? Ninguém. A não ser que não haja mais nada do que a própria razão a nos sugerir nas profundezas da nossa intimidade que não somos nós que produzimos acção no cosmos.

Inteligência e abismo

Hoje fiquei com a ideia que a inteligência precipita-se com muita facilidade, não será por acaso que muitas mentes astutas, acutilantes, profundas e articuladas mergulharam povos inteiros no abismo, em ciladas infernais.

Com ou sem decoro?

Lembro-me de uma história sobre um rapaz "que era bom demais para ser verdade", a figura ouviu das boas porque todas as suas acções eram correctas, íntegras e cândidas, não podia ser verdade, não existe bondade assim (não estou a falar de mim). Lembro isto a propósito de Marcelo, digamos que o seu discurso é irrepreensível, mais do que perfeito, é demasiado excelso para ser verdade. Levanta a questão se é verdadeiro, honesto e coerente, fica a ideia que tanta bonança só pode ser premeditada, hipócrita e dissimulada, é fruto de uma mente calculista. E aqui reside um problema fundamental. O que importa? A aparência, as formalidades e os sinais exteriores do discurso? Ou a essência? Não digo que o presidente seja uma besta, mas quanto a bestas, quais são as preferidas? As que dissimulam ou as rudes e genuínas?

Karl Kraus

Karl Kraus reproduzia em espectáculos de grande impacto trechos que encontrava em jornais, assim, descrevendo a decadência dos costumes através da palavra escrita, o modo como a linguagem pode conduzir à perversão. Foi um visionário, anteviu a emergência dos nazis e a queda da Áustria ao terceiro reich. Sinto que posso fazer exactamente o mesmo nos dias de hoje, como se estivéssemos numa antecâmara de uma catástrofe. As eleições no Brasil fizeram-me compreender que a propaganda nos dias de hoje é um fenómeno horizontal, são as pessoas comuns que deliberadamente propagam a distorção dos factos, posso até achar que existem organizações em torno das fake news e tudo mais, mas a sua influência seria mínima, residual se não houvesse uma horda de ávidos colaboradores.

O assunto tabu da minha amiga

Um dia uma amiga minha convidou-me para tomar um café, eu digo tomar café como um rendez vous, um péssimo hábito, convenhamos. Quando cheguei ao lugar combinando, estava lá uma amiga da minha amiga. As duas conversavam sobre o namorado da amiga da minha amiga e como devem calcular estava ali a mais, as duas ignoraram-me com uma conveniência muito feminina. A dada altura, decidi intervir com esta brilhante e inocente observação: - Tu não fazes dessas coisas ao teu namorado por amor, fazes simplesmente por poder, não é? Percebi que tinha dito uma atrocidade pelo olhar fulminante da minha amiga, acredito que se pudesse mandava-me logo para um pelotão de fuzilamento. A outra ignorou-me para todo o sempre, e a minha amiga pura e simplesmente nunca quis falar sobre o assunto, a única coisa que disse foi: - Tu nunca compreenderás.  É verdade. 

A irracionalidade pode ser um negócio

Quando penso no rol de polémicas que chegam ao meu discernimento e na dificuldade em separar o trigo do joio, o que é essencial do acessório, o que é valioso e o que é trivial, chego à conclusão que há que cultivar um saudável distanciamento da realidade, aquela que descobri em Derrida, a realidade intersubjectiva.  Ainda no outro dia reflecti sobre a fanática atenção perante a realidade e sua natureza obsessiva, é uma atenção irracional porque esta "realidade" é na sua essência irracional, sobrevive do empolamento de mentiras ou verdades banais, sem interesse ou valor. Ser cúmplice dessa "realidade", colhendo polémicas avulsas e sem nexo, sem consequência nenhuma na realidade dolorosa, a real, onde impera os receios e a solidão, e como as polémicas servem apenas para lavar as mãos como Pilatos, ou seja, para servem para ilibar a consciência do desconcerto do mundo. Não há melhor caminho do que ignorar, abster-se, não alimentar a feira de distracções da alma, não …

Nelson Gonçalves - A volta do boêmio

Trecho

(...)
- És um humanista. - replicou num tom irónico. 
- Pois, com certeza que não. Sou um anti-niilista sem me deixar convencer pelos dotes da humanidade. 
- É de valor! Serei um anti-niilista. Seremos os dois! O humanismo é lamechas. Não seremos reféns de sentimentos bambos. 
(...)

Rancores Sensuais

Já testemunhei a rancores sensuais, e já li que Tony Judt escreveu sobre o assunto, em círculos intelectuais os rancores sensuais tornam-se épicos, com uma intensidade avassaladora que acaba por ter uma ressonância que propaga-se na história. O exemplo de Camus e Sartre pode ser uma mera divergência causada pelo ciúme. O ciúme é um jactante inimigo da concórdia, o rancor sensual é algo um pouco diferente, há intimidades que pagam-se caro. De modo que, o mais perigoso meio para um intelectual talvez não seja a resistência activa aos nazis, o verdadeiro perigo reside sempre nos lençóis, e tudo o que aí se passa. António e Cleópatra é um bom exemplo, a força sensual dos dois têm muito mau cariz para os romanos, foi isto que Shakespeare quis retratar, esta força, uma ameaça insidiosa, funesta para o poder de Roma.  Mas isto parece indicar que nem toda a malícia tem como causa uma maldade, há muita malícia, muito ódio, que não tem necessariamente uma causa funesta. Aquilo que quero denuncia…

Uma longa tradição de medo

José Gil escreveu sobre o medo de existir dos portugueses, um ensaio lido há poucos anos mas que deixou uma vívida impressão. Existir é realmente um dilema, a existência é problemática, há que lidar com todo um rol de adversidades, fruto das mais variadas fontes de dificuldades, há a mórbida imaginação com figuras públicas, há a ferocidade dos detratores, há os críticos fuinhas que são muitos e com as mais paralisantes frustrações, existir é difícil, árduo, ninguém sai incólume da existência. Claro que isto não significa que não se deseje ardentemente existir. Subir na "escada social" é uma obsessão nacional, e quem se atreve a escapar da sua condição humilde sofre as mais estranhas consequências, não se admite o sucesso a qualquer um em Portugal. É preciso pedir licença para ter sucesso.  Talvez tudo isto seja apenas uma consequência do estado espiritual dos portugueses, muitos portugueses não convivem muito bem consigo próprios, não aceitam com gentileza o facto de serem in…

Ímpia compaixão

Houve um tempo que os dois falavam-se, trocavam impressões de versos, arte, pensamentos, sem tocar no assunto, como se esse assunto não existisse, o caso é uma mulher, uma mulher que tinha pertencido aos dois, uma mulher poderosa, sensual, forte. O primeiro tinha tido um breve caso com ela, um contacto íntimo que durou pouco até que ela o trocasse pelo segundo. Claro que tudo aconteceu com cordialidade, como se nada tivesse ocorrido, como se não houvesse maneira de arrancar rancor. Mas o ressentimento ficou, oculto, debaixo da superfície. O caso não podia ser esquecido, o primeiro foi humilhado pelos amigos, todos sabiam o que tinha ocorrido, ele ficou sem o seu caso amoroso, num momento em que todos sabiam que a amava. Ela partiu sem consideração pelos seus sentimentos, trocou-o por alguém que não merecia o seu respeito. Foi uma traição, uma sivícia, ela era a sua amada, o amor é sagrado, é inconcebível que seja rasgado por um ímpio. Os dois tinham a mais íntima das ligações, ela é …

Literatura & Vida

Não digo isto com altivez, como se o acesso à literatura fosse um passaporte social, não o é, nem o vejo desse modo. Os pergaminhos da cultura nunca ajudaram em nada em vida social, podem ter sido úteis na intimidade, nos cantos da intimidade a cultura tem saboroso valor, mas na vida social é muito pouco relevante discutir um romance, os versos de um poema ou uma ideia de um filósofo, a cultura na vida social é apenas um trunfo se poder ser usada como arma, já assisti a isso, mas nunca foi meu apanágio. Nunca usei a cultura como arma, nem tenho interesse nisso. Aliás, porque quem usa a cultura como arma geralmente é um filisteu. Mais uma vez digo isso porque testemunhei esses episódios.  A minha relação com a literatura é um antídoto da vida, enquanto a vida é caótica, confusa, cruel e inclemente, uma prosa bem construída ou um bom verso são chaves para o éden, são, assim, um bálsamo, tem um efeito terapêutico de escape, de fuga da mundanidade e da vulgaridade. Não nego a sua utilida…

A roleta russa democrática

O caso Le Pen - Web Summit foi amplamente discutido, e os termos do debate giraram em torno da liberdade de expressão da candidata da Frente Nacional. Ainda tentei entrar no debate com a ideia de Karl Popper, é um paradoxo, mas devemos ser intolerantes com a intolerância. Mas depois reflecti sobre o assunto e cheguei à conclusão que o debate não é sobre um direito. Ser orador na Web Summit não é um direito. A Web Summit é uma iniciativa privada patrocinada pelo Estado Português e serve um conjunto de propósitos que, por muito duvidosos que sejam, não incluem patrocinar a mensagem política de Le Pen.  É uma questão de democracia? Talvez, porque numa democracia ninguém pode ser vedado de veicular a sua mensagem. Mas a democracia não é uma musa espartana, que dá luta até esgotar as suas forças e dar lugar a outra forma de governo. A musa pode ser frágil e merece desvelo quando a sua segurança está em risco.  A democracia tem regras e limites, Le Pen preservera na sua "luta" po…

Escolher inimigos

Escolher um inimigo pode ser uma arte, pode-se imaginar um inimigo figadal que nos conhece, é matreiro e competitivo, este inimigo pode ser uma bênção, uma motivação intrínseca, alguém que, pelo seu talento, conduz-nos à excelência, ao ápice das aptidões, um bom inimigo eleva, um bom inimigo é muito mais valioso que um conhecido, um bom inimigo é melhor do que muitos amigos. Um bom inimigo é alguém que é exigente, não admite que desçamos de nível, quer mais e melhor, um bom inimigo é uma excelsa razão para alcançar melhores resultados, ir mais longe, ser mais preciso e acutilante nas acções. Um bom inimigo, como já disse, é uma bênção.  Os maus inimigos são um desconforto, os maus inimigos são um empecilho, os maus inimigos rebaixam-se, são glutões e venenosos, são criaturas de uma inanidade solene, são criaturas que se comportam como vermes. Os maus inimigos acreditam que o rebaixamento os eleva, não elevam nada, tudo afundam nos seus termos, porque o mau inimigo não tem mestria para …

Memória é identidade

Todas as minhas leituras perdem-se na memória, sou apenas um leitor intuitivo, não um grande leitor, muito porque não estudo o texto, não cultivo as suas subtilezas, não rasuro ou deixo notas, leio apenas, e pouco mais. O papel da memória assim deixa muito a desejar, cultura é memória, não uma memória fotográfica, mecânica, mas ainda assim, uma memória funcional. Não a tenho, assim a minha cultura é incipiente, fragmentos de prosa, algumas notas fugazes. Ser culto é cultivar a memória.  A memória também deve ter um papel muito relevante na identidade, aquilo que somos é memória, não uma memória estática, de episódios com princípio, meio e fim, mas uma consciência que recria de uma memória concreta, quais são os traços da nossa identidade, qual é o nosso carácter, o que desejamos e ambicionamos. Se a memória é falível, toda a nossa identidade assenta num substrato instável. Sem fundações não há carácter. Lembro-me uma vez de um diálogo de uma conhecida, o seu discurso era uma repetição …

Uma máquina absurda de produzir cínicos

Sinto-me inclinado a escrever sobre uma susceptibilidade à perturbação, conheço uma pessoa que abdicou de todas as convenções sobre a vida social, ter um emprego, um namoro, sair com os amigos ou participar na vida cívica, para viver em reclusão. Quando aludi sobre as limitações do seu modo de vida, na inevitável solidão, a miséria e dependência, ele respondeu que quando estava sozinho não havia perturbações, e que isso deixava-o num estado de caos, a reclusão, assim, é um mal menor. Ele dá um emprego a uma palavra que levo muito a sério, a "perturbação". Para ele, os outros são uma perturbação, como não sou psicólogo ou particularmente astuto, depreendo que a sua perturbação seja uma maleita, um caso clínico, que poderia ser resolvido com fármacos. Mas ele sugere que não: "não penses que sou louco". Diz-me, apesar de ser possível que um louco fale assim. Eu apreendo, então, que o seu caso prende-se com uma aflição, uma incapacidade de barrar as perturbações do mund…