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Mensagens

O assunto tabu da minha amiga

Um dia uma amiga minha convidou-me para tomar um café, eu digo tomar café como um rendez vous , um péssimo hábito, convenhamos. Quando cheguei ao lugar combinando, estava lá uma amiga da minha amiga. As duas conversavam sobre o namorado da amiga da minha amiga e como devem calcular estava ali a mais, as duas ignoraram-me com uma conveniência muito feminina. A dada altura, decidi intervir com esta brilhante e inocente observação: - Tu não fazes dessas coisas ao teu namorado por amor, fazes simplesmente por poder, não é? Percebi que tinha dito uma atrocidade pelo olhar fulminante da minha amiga, acredito que se pudesse mandava-me logo para um pelotão de fuzilamento. A outra ignorou-me para todo o sempre, e a minha amiga pura e simplesmente nunca quis falar sobre o assunto, a única coisa que disse foi: - Tu nunca compreenderás.  É verdade. 

A irracionalidade pode ser um negócio

Quando penso no rol de polémicas que chegam ao meu discernimento e na dificuldade em separar o trigo do joio, o que é essencial do acessório, o que é valioso e o que é trivial, chego à conclusão que há que cultivar um saudável distanciamento da realidade, aquela que descobri em Derrida, a realidade intersubjectiva.  Ainda no outro dia reflecti sobre a fanática atenção perante a realidade e sua natureza obsessiva, é uma atenção irracional porque esta "realidade" é na sua essência irracional, sobrevive do empolamento de mentiras ou verdades banais, sem interesse ou valor. Ser cúmplice dessa "realidade", colhendo polémicas avulsas e sem nexo, sem consequência nenhuma na realidade dolorosa, a real, onde impera os receios e a solidão, e como as polémicas servem apenas para lavar as mãos como Pilatos, ou seja, para servem para ilibar a consciência do desconcerto do mundo. Não há melhor caminho do que ignorar, abster-se, não alimentar a feira de distracções da alma, não...

Nelson Gonçalves - A volta do boêmio

Trecho

(...) - És um humanista. - replicou num tom irónico.  - Pois, com certeza que não. Sou um anti-niilista sem me deixar convencer pelos dotes da humanidade.  - É de valor! Serei um anti-niilista. Seremos os dois! O humanismo é lamechas. Não seremos reféns de sentimentos bambos.  (...)

Rancores Sensuais

Já testemunhei a rancores sensuais, e já li que Tony Judt escreveu sobre o assunto, em círculos intelectuais os rancores sensuais tornam-se épicos, com uma intensidade avassaladora que acaba por ter uma ressonância que propaga-se na história. O exemplo de Camus e Sartre pode ser uma mera divergência causada pelo ciúme. O ciúme é um jactante inimigo da concórdia, o rancor sensual é algo um pouco diferente, há intimidades que pagam-se caro. De modo que, o mais perigoso meio para um intelectual talvez não seja a resistência activa aos nazis, o verdadeiro perigo reside sempre nos lençóis, e tudo o que aí se passa. António e Cleópatra é um bom exemplo, a força sensual dos dois têm muito mau cariz para os romanos, foi isto que Shakespeare quis retratar, esta força, uma ameaça insidiosa, funesta para o poder de Roma.  Mas isto parece indicar que nem toda a malícia tem como causa uma maldade, há muita malícia, muito ódio, que não tem necessariamente uma causa funesta. Aquilo que quero d...

Uma longa tradição de medo

José Gil escreveu sobre o medo de existir dos portugueses, um ensaio lido há poucos anos mas que deixou uma vívida impressão. Existir é realmente um dilema, a existência é problemática, há que lidar com todo um rol de adversidades, fruto das mais variadas fontes de dificuldades, há a mórbida imaginação com figuras públicas, há a ferocidade dos detratores, há os críticos fuinhas que são muitos e com as mais paralisantes frustrações, existir é difícil, árduo, ninguém sai incólume da existência. Claro que isto não significa que não se deseje ardentemente existir. Subir na "escada social" é uma obsessão nacional, e quem se atreve a escapar da sua condição humilde sofre as mais estranhas consequências, não se admite o sucesso a qualquer um em Portugal. É preciso pedir licença para ter sucesso.  Talvez tudo isto seja apenas uma consequência do estado espiritual dos portugueses, muitos portugueses não convivem muito bem consigo próprios, não aceitam com gentileza o facto de serem...